quarta-feira, 31 de julho de 2013

Da imortalidade

Odeio baratas. Não é novidade.

Por causa do calor, as malditas começaram a aparecer. Não lá em casa, que felizmente o ano passado tivémos a brilhante ideia de chamar um senhor para andar lá a esguichar um spray milagroso (nada de Baygon ou DumDum ou armadilhas do caraças; uma cena industrial, mesmo!), mas no parque de estacionamento e, consequentemente, na entrada do prédio.

A minha vizinha de baixo ainda é mais paranóica do que eu no que toca aos malditos bichos (eu compreendo-te, querida!) e encarregou o marido de espalhar um pó branco na porta de entrada do prédio, na porta de entrada do apartamento deles (está lá uma cagada bem feita! Nem deixou escapar a ombreira da porta. LOL) e em zonas estratégicas do parque.

Segunda-feira à noite cheguei a casa pelas 22:30 e lá estava uma, atrás da porta de entrada do prédio, de barriga para o ar. Comeu o pó, a desgraçada. Anda!
Ontem de manhã saí para trabalhar e ela ainda lá estava. Ao fim do dia, quando cheguei, o mesmo cenário.

Hoje, desci as escadas e nem me lembrei da bicha. Quando fui abrir a porta, olhei para o chão e lá continuava ela. Só que mexia as patas, o demónio! Três dias depois e AQUILO ainda está vivo. Não, não era uma barata diferente. Era a mesma. Estava EXACTAMENTE no mesmo sítio e eu sei que niguém lhe vai tocar até a empregada ir lá limpar as áreas comuns.

WTF? 
Ca nojo!!!!!


terça-feira, 30 de julho de 2013

Competir a escrever #9

À 9ª jornada deram-nos este tema: "Escreva sobre uma das mais difíceis decisões que teve de tomar na sua vida."

A Claudiamar escreveu esta versão tocante.

Eu fiquei-me por um romance soft porn digno de figurar nas páginas centrais da Revista Maria.


Sempre fomos um casal discreto. De poucas saídas e noitadas, apreciadores do nosso sossego e privacidade. Estávamos casados há 4 anos e havíamos namorado uns outros tantos. Conhecíamo-nos de cor, portanto.
Dávamo-nos muito bem com o Paulo e a Ana. Aos fins-de-semana juntávamo-nos sempre em nossa casa ou na deles para jantarmos e passarmos o serão juntos. Também ainda sem filhos, eles haviam optado, contudo, por uma relação mais liberal, sem papéis a servirem de amarras.
Num sábado à noite – um daqueles que nos coubera  – depois de uns copos de tinto a mais, decidimos, qual adolescentes, jogar ao “Verdade ou Consequência”. As coisas começaram a aquecer e, já não me lembro bem como, acabámos os quatro semi-nús na sala. Uma coisa levou a outra e o João começou a acariciar-me ali mesmo em frente aos nossos amigos. Eles perceberam a dica e alinharam. Não tardou e estávamos, ambos os casais, a fazer amor em frente uns aos outros, no tapete, nos sofás…
A iniciativa partiu da Ana. Levantou-se e aproximou-se do João. Fez sinal ao Paulo para vir ter comigo. Fui completamente apanhada de surpresa. Termos sexo juntos era diferente do que trocarmos de parceiros. Não tive mais do que dois segundos para decidir. Ou punha cobro à situação naquele mesmo instante e criava um ambiente de cortar à faca, ou avançava e punha em risco a nossa amizade e, muito provavelmente, o meu casamento.
Fechei os olhos e deixei-me levar. Sentir umas mãos diferentes a percorrer o meu corpo levou-me ao êxtase em poucos minutos. A excitação estava ao rubro. Porém, quando me virei e vi o João em cima da Ana, a beijá-la e a penetrá-la, foi como se tivesse levado um murro no estômago.
“Párem!”, gritei. “Esta palhaçada acabou. Vocês os dois: saiam já daqui!”. Ficaram todos a olhar para mim sem perceber o que tinha despoletado a minha fúria. “Saiam, não ouviram?! Peguem na merda das vossas roupas e desapareçam!”.
Fiquei sozinha com o João. Ele olhava-me incrédulo. Escorriam-me lágrimas pelo rosto e só consegui murmurar: “Não foi preciso dizerem-me nada. Bastou-me olhar para vocês os dois e perceber que esta noite não foi a primeira vez.”. Ele ainda tentou balbuciar qualquer coisa, mas interrompi-o: “Vi a intimidade com que partilharam aquele momento. Há sentimentos por detrás daquela simples queca”. João apenas baixou os olhos. “Tens até amanhã ao fim do dia para saíres desta casa”.


domingo, 28 de julho de 2013

Competir a escrever #8

À 7ª semana, foi este o desafio: "Qual será a cor da revolta? Escreva sobre ela."

A versão da Claudiamar foi esta.

Aqui está a minha:


Hoje escapuli-me à reunião da Mocidade Portuguesa. O meu primo João, que já é Cadete, contou-me que o que nos estão a fazer é uma lavagem cerebral e que as coisas não se passam como nos querem fazer crer. As fotografias que projectam para mostrar as atrocidades que os pretos fazem aos portugueses são, segundo o meu primo, falsas. Diz ele que a gente é que lhes foi roubar a terra e que os nossos soldados, antes de regressarem, matam, mutilam e violam apenas por prazer. Os que não sobrevivem deixam por cá as mães a chorar os filhos, que “foram heróis no Ultramar”. Que ultraje! Quer que o acompanhe a um encontro de jovens, mas em segredo. Cheira-me a sarilhos e rejeito o convite.
Os meus pais não sabem que faltei e os meus colegas Vanguardistas estão demasiado concentrados em folhear aqueles folhetos com imagens de mulheres nuas que o Fernandinho levou a semana passada para darem pela minha falta, como miúdos de 15 anos que são.
Às escondidas, espreito pela porta entreaberta do salão paroquial e escuto, em surdina, a conversa do meu primo João e dos amigos dele. Falam alto, põem-se de pé, esbracejam. Têm o rosto ruborizado e parecem-me exaltados. Acho que se estão a arriscar um bocado, pois se alguém sequer sonhar que estão a pôr em causa o regime, vão meter-se em sérios trabalhos. Podem até ser acusados de conspiração contra a Nação!
Ouço um deles falar em “revolta”. Surgem, aleatoriamente, palavras como “revolução”, “armas”, “cravos”, “Abril”. Sinto-me assustado. Apercebo-me de que há um movimento militar ao qual querem juntar-se, mas contra a nossa própria Pátria. Como podem pensar assim? O que aconteceu aos imperecíveis princípios e valores da civilização cristã que sempre nos foram incutidos? Onde está o sentimento da ordem, o gosto pela disciplina e o culto do dever que nos foram ensinados?
Fecho os olhos por um momento e vejo tudo vermelho. Imagino sangue, pessoas a correr e a cair, gritos e dor. Caio em mim e vejo que o ambiente que se sente naquela sala me foi transmitido. Não estive lá dentro, mas sinto-o. Nasceu em mim uma força, uma revolta. 
Se me perguntarem de que cor é, respondo que não tem. A revolta não tem cor. Não tem cheiro, nem tem sabor. A revolta sente-se. Só o tacto dá por ela, pela tensão no corpo de quem a experimenta.

I'm easy like sunday morning


Acorda, come, vai à net, dorme.
Acorda, come, vai à net, dorme.
Again.
Em modo repeat.




segunda-feira, 22 de julho de 2013

Competir a escrever #7

Na 6ª jornada do Campeonato Nacional de Escrita Criativa foi-nos proposto o seguinte desafio: "Recordar e escrever sobre uma das suas mudanças de casa."

A Claudiamar teve esta abordagem interessantíssima.
Eu saí-me com isto:



O meu pai estava na tropa quando disse à minha mãe que casariam assim que saísse dali. Disse, não pediu. Não tinham casa e ela não trabalhava, mas naquela altura e na minha terra era esse o curso normal das coisas: eles já namoravam (à janela) há demasiado tempo e ele queria despachar o assunto. Ela, submissa, assentiu. Sempre deixou que fosse ele a decidir tudo.
O meu pai ainda deu metade do último ordenado que recebeu antes de casar aos meus avós e levou de dote um cobertor e uma imagem da Sagrada Família. Tinha conseguido, no último ano, amealhar o suficiente para comprar um frigorífico e um fogão. Já a minha mãe, um bocadinho mais remediada, levou a mobília do quarto de cama e os pais pagaram-lhe a boda.
Receberam como presentes de casamento licoreiras e bomboneiras, copos com as personagens da novela das nove, lençóis e naperons. E foram viver para casa dos meus avós paternos, onde tinham um quarto, o respectivo espaço na cozinha e acesso à casa de banho e às outras divisões comuns. Nos outros quartos estavam os meus avós, os meus tios e os seus dois filhos e, enfiada no sótão, a minha tia mais nova, ainda adolescente.
Quando a vida o permitiu, os meus pais começaram a construir uma casa. Os trabalhos decorriam em função do dinheiro disponível, ou seja, lentamente. Recordo-me de ouvir a minha mãe referir-se àquelas paredes como "a casa nova" e eu experimentava, então, um sentimento bom. Seríamos só nós. Mas olhava para ela e reconhecia-lhe no rosto um semblante pesado e triste.
Da mudança em si, tenho apenas ténues memórias. Recordo um camião em frente à casa dos meus avós e revejo o meu pai e várias outras pessoas sem rosto a atirarem tudo o que era nosso lá para dentro. O meu berço, as minhas bonecas, as nossas roupas atiradas sem qualquer tipo de ordem ou arrumação. E a minha mãe a chorar. O meu pai tinha bebido e decidido que aquele era o dia.
A entrada na "casa nova" não me traz um sorriso aos lábios. Atormentam-me a confusão que ainda visualizo, a embriaguez do meu pai e a mágoa da minha mãe. Naquele dia houve mais do que uma mudança: a realidade a que assisti destroçou o coração e abalou o mundo de uma menina que tinha no pai o seu herói. 


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Competir a escrever #6

O tema da quinta jornada: "A beleza chora até morrer. Explore a metáfora."

A original versão da Claudiamar aqui. :) 

A minha:

Raquel queria ser famosa. Modelo ou actriz, tanto lhe fazia. Sonhava aparecer nas revistas, ir a festas, dar entrevistas e ser vista na televisão.
Era uma rapariga bonita, de uma beleza comum, mas singular à sua maneira. Tinha a pele clarinha, os olhos cor de avelã e um cabelo castanho cheio de caracóis que lhe davam tanta personalidade. No seu íntimo, contudo, degladiavam-se essa beleza e a inteligência emocional que guiava os seus passos, a sua forma de estar na vida. A primeira começava a perder a serenidade porque não gostava do que via. E chorava. A segunda, que tentava manter Raquel de pés assentes na terra, pouco a pouco foi perdendo importância perante aquela beleza insatisfeita e que chorava ansiosa e desesperadamente por mudanças. Não conseguiu pôr-lhe travão. Raquel sentiu-se de tal forma afectada pelo insistente e cansativo choro da beleza que perdeu a ligação que tinha com a inteligência emocional. Adormeceu-a.
Começou por pintar o cabelo de loiro, colocar lentes de contacto azuis, ir ao solário pôr-se morena e injectar botox nos lábios. Pouco depois, já a beleza chorava novamente; queria mais. Queria ser única, extraordinária, exótica. E por isso chorava. Raquel colocou implantes de silicone no peito e fez uma lipoaspiração. Inconsolável, a beleza achava que Raquel ainda não fizera o suficiente para poder alcançar o sucesso e continuava a chorar, diária e copiosamente. Raquel fez, então, um lifting facial e uma rinoplastia. A beleza achou pouco e chorou quase até não ter lágrimas. Queria ser admirada, caramba! Fez Raquel submeter-se a mais duas cirurgias ao nariz. Um desastre absoluto. Mais um retoque e o septo nasal poderia colapsar. A beleza ficara devastada!
Uma manhã, Raquel olhou-se ao espelho e viu que não era bonita. Havia sido. Mas sabotara-se a si própria. Vivera a falsa quimera de alcançar a perfeição e a sua beleza morrera. Morrera de tanto chorar. Agora não passava de uma aberração.
"E é por isso que a reencaminho para si, colega. Por mais cirurgias que lhe faça, não conseguirei devolver-lhe a formosura, mas a psicoterapia ainda vai a tempo de controlar o transtorno dismórfico corporal e evitar que ela insista nas operações plásticas. É que a beleza deu lugar à fealdade e facilmente a vida poderá sucumbir perante a morte".

República dos Bananas

Não se alcançou o "acordo de salvação nacional". Nem me parece que os líderes partidários se tenham esforçado para o efeito...
E agora, Senhor Presidente da República?! Mais alguma sugestão? Eleições antecipadas para daqui a 1 ano? E entretanto? Que tal um pontapé no cú do maricas do Portas? Um calduço na cabeça de alho chocho do Coelho? Um abanão no pastel de nata que é o Seguro? Um berro para pôr os "miúdos" em ordem, não?
Merkel: podes avançar. Portugal é vosso.



quinta-feira, 18 de julho de 2013

Ricardo Araújo Pereira a Primeiro Ministro!

Só é pena ser comuna assumido, o gajo. 
Inteligente como poucos e foi cair na ilusão da foice e do martelo... :P 
Porque, de resto, acho que os tinha no sítio para dar uma voltinha a esta situação levemente incómoda que se vive em Portugal...



Quando Vítor Gaspar justificou a queda do investimento em Portugal com a chuva, milhares de alunos do ensino secundário terão festejado. Há um número bastante limitado de boas desculpas para não fazer os trabalhos de casa, e mesmo essas, à força de serem repetidas, têm vindo a perder prestígio. O falecimento dos avós, por exemplo, só pode ser alegado, no máximo, quatro vezes – muito pouco para os 12 anos de escolaridade obrigatória, uma vez que, em média, não permite ao aluno livrar-se de mais do que um trabalho por cada três anos, o que tem sido lamentado por madraços de todos os tempos e lugares.


O aparecimento de uma nova justificação, além do mais com o alto patrocínio do ministro das Finanças, alegrou certamente jovens de todo o país. Sá Carneiro tinha sonhado com um governo, uma maioria e um Presidente, mas o tempo veio a demonstrar que um estadista verdadeiramente ambicioso deve sonhar com um governo, uma maioria, um Presidente e um Anthímio do Azevedo. As condições climáticas têm sido injustificadamente descuradas pela ciência política. Nenhum ministro, por mais hábil que seja, consegue controlar o défice com uma humidade relativa superior a 65 por cento. O desemprego não baixa se a temperatura mínima for sistematicamente inferior a 12 graus. E os juros da dívida sobem com os aguaceiros fortes de noroeste.

Ainda assim, há quem considere que a desculpa apresentada por Vítor Gaspar inaugura um novo tipo estratégia: avançar com a chuva como justificação para o fracasso é uma espécie de política molha-parvos. Mas quem tem dúvidas de que o clima influi decisivamente na governação, visite a enevoada Noruega, que por isso mesmo não passa da cepa torta, e depois compare com o espectacular desenvolvimento económico das soalheiras ilhas de Cabo Verde. Não admira que os povos tropicais se organizem com frequência para, disponibilizando um pouco da sua riqueza, ajudar os pobres países nórdicos, prejudicados pelo clima inclemente.

Faz falta, no entanto, integrar mais claramente o factor meteorológico no discurso político, em especial nas campanhas eleitorais. Terá mais credibilidade o partido cujas promessas tomarem em consideração as variáveis climáticas. “Não cortarei o 13.º mês se o anticiclone dos Açores bloquear as frentes frias”, por exemplo, é uma promessa moderna.


                                                                                                                                         Ricardo Araújo Pereira

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